Diário da Expedição BOLPEBRA – Paisagens de tirar o fôlego no planalto andino- Acreaovivo.com - TELEFONE: (68) 3224-8430 Quem curte moto e já teve a oportunidade de pilotar nos Andes sabe que o playground dos motociclistas é aqui!

Diário da Expedição BOLPEBRA – Paisagens de tirar o fôlego no planalto andino

Segunda-Feira, 11 de Setembro de 2017 às 13:59 - Atualizado em Quarta-Feira, 13 de Setembro de 17 às 10:45
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Nossa Expedição BOLPEBRA seguiu explorando as belezas das paisagens andinas, partindo de La Paz no dia 6 de setembro rumo a Copacabana, com previsão de 150km. A saída cedo da manhã do confortável hotel Camino Real foi tranquila, evitando o trânsito mais intenso e subindo desde a Zona Sur até a cidade de El Alto por caminho alternativo ao caótico centro de La Paz.

Em El Alto aproveitei para comprar uma câmara de ar traseira de reserva para a Africa Twin, pois já diziam os antigos que caldo de galinha e prevenção não faz mal a ninguém. A estrada em direção ao lago Titicaca está em avançadas obras de duplicação, mas havia um alerta sobre bloqueio de protestos dos trabalhadores, o que nos obrigaria um caminho alternativo off-road. Chegamos ao bloqueio e gentilmente os grevistas nos deixaram passar em meios às pedras, mesas e barracas colocadas sobre a rodovia.

A paisagem árida vai se distanciando e ficando estonteante a margem do lago Titicaca. O lago, considerado o navegável mais alto do planeta (altitude na casa dos 3.800m) tem duas partes, sendo a menor inteiramente no lado boliviano. A parte maior é dividida pelos dois países Bolívia e Peru e são conectados através do estreito de Tiquina. Olhando do alto via satélite tem-se a figura de um puma na parte maior e de uma lebre na parte menor. Os antigos habitantes do lugar, culturas pré inkas, já definiam essas formas.

Cruzamos o lago em Tiquina em balsas de madeira – há dezenas delas transportando motos, carros, vans, ônibus e caminhões, só não passa aqui carretas.

De Tiquina a Copacabana são aproximadamente 44km de estrada sinuosa, bem conservada e paisagens espetaculares, contrastando a aridez das montanhas com o azul intenso do lago e algumas árvores a sua margem. Perigoso é se distrair na pilotagem e “viajar” no visual. No percurso há alguns “miradores”, inclusive com pequenos trechos off-road, mas que valem a pena parar para contemplar o ambiente e registros fotográficos.

Havia abastecido na saída de El Alto e poucos quilômetros depois comecei a sentir uma falha no rendimento da África Twin, com sintomas típicos de gasolina queimando com água. Assim levamos a moto até Tiquina e de lá o Osvaldo Dias aproveitou para curtir as curvas e paisagens pilotando essa máquina e eu como um duble de fotografo, fazendo os registros pendurado na janela da camionete.

Chegamos à Copacabana a tempo de deixar as motos e camionete no hotel e embarcarmos para breve visita a Isla do Sol, onde almoçamos. O passeio em barcos turísticos leva 1h30 até a pequena vila encrustada na montanha que forma ilha. Lá existem diversas ruinas pré históricas, porém deixamos de visitá-las em razão do pouco tempo disponível e optamos por degustar “esquisitas truchas en la plancha”: pense numa delícia. Tudo isso com o lago de testemunha e a ostentosa cadeia de montanhas nevadas da Bolívia ao fundo.

O final de tarde foi divino com o por do sol dourando o lago. A noite foi chuvosa e nos obrigou a apreciarmos a gastronomia de primeira qualidade do “hermoso” restaurante do hotel boutique Rosario do Lago. Apesar de estarmos climatizando há quatro dias em altitudes acima de 3.200m, o pernoite acima de 3.800m é desconfortável com o ar rarefeito. Eram 4 da manhã que o mal estar me expulsou da cama, mas para minha surpresa o tempo estava aberto e a luar maravilhoso com seu reflexo prateando o lago! Obrigado Senhor!

Ah, lembra da falha do motor da Africa? Pois bem, com ajuda do Raphal Lampião, tiramos 100% da gasolina restante do tanque e abastecemos com gasolina reserva que trazíamos desde o Brasil no carro de apoio e a moto voltou a ficar com seu pleno desempenho!

Chegamos ao Peru – estamos em casa

De Copacabana a Puno, no Peru, são apenas 140km, com uma passagem de fronteira com tramites relativamente rápidos. Porém era o dia anual que se realiza uma feira em ambos os lados da divisa em que tudo pode ser vendido e passado sem controle aduaneiro para ambos os lados. Centenas de barracas que vendiam de moveis, colchões, panelas, eletrônicos a sapatos e roupas. Somente uma estreita via permanecia aberta para a passagem lenta dos veículos. Mas deu tudo certo e seguimos viagem a Puno, hospedando-se no tradicional hotel San Antônio, tendo o lago Titicaca a frente.

O grupo optou por descansar e não visitar as famosas “islas flotantes los Uros”. A noite, porém, nos divertimos com a “cena show” na casa Balcones de Puno, onde apreciamos a culinária regional e shows típicos de dança e música andina, com destaque para o hino “El Cóndor Pasa” composta em 1913 por Daniel Alomia Robles e posteriormente letrada por Julio de La Paz, que foi oferecido ao nosso grupo.

Apesar da ótima passagem e estadia pela Bolívia, foi consenso no grupo que a chegada ao Peru nos deixou com sentimento de estarmos em casa, talvez pelas inúmeras vezes que a maioria dos expedicionários já estiveram por essas paradas.

Na sexta-feira, 8/9, partimos cedo com termômetro marcando 4,5º célsius, para mais um desafio: La Riconada, considerada pela revista National Geographic como a mais alta do mundo, acima de 5100m do nível do mar. Bem agasalhados (eu estava com seis camadas de roupas na parte superior e três nas pernas), escolhemos um percurso inédito em expedições que realizamos, virando a direita após 20km de Puno, antes de Juliaca, rumo ao lago. A estrada é pavimentada até certo ponto e depois pegamos a esquerda por uma estradinha de pedra bem firmada que passou a contornar sinuosas montanhas a margem do lago Titicaca. Um espetáculo de paisagens naturais!

Em certo ponto paramos para contemplar e conversamos bastante sobre o rendimento das motos nessa viagem, as escolhas pelas marcas e modelos, destacando o empresário Osvaldo Dias que a Honda South America vem apostando no crescimento do setor das motos de alta cilindrada com lançamentos e assistências que nenhuma outra marca dispõe no Brasil, a exemplo da Honda CRF 1000L Africa Twin que venho conduzindo nessa viagem de roteiros extremos. Adiantou, inclusive, que no próximo Salão Duas Rodas, previsto para novembro em São Paulo, haverá belas novidades.

Deixamos a margem do lago Titicaca rumo a San Antônio de Putina, pequena porém organizada e limpa cidade que nos foi base de pernoite. Mas antes passamos novamente a subir as montanhas para alcançar Ananea, com 50km de asfalto, e de lá 20km de estrada de pedras soltas em meio a dezenas de mineradoras de ouro até La Riconada, a cidade garimpo que nos impressionou não somente pela altitude – acima de 5100m –, mas também pela quantidade de pessoas que vivem e situações extremas de pobreza, frio, sujeira espalhada e esgoto correndo a céu aberto – situação contrastante mas típica de qualquer garimpo no Brasil. Breve parada na pequena praça, com termômetro marcando zero grau as 13h, sob olhares curiosos de um povo sazonal mas que está ali desde a época dos espanhóis explorando a riqueza do ouro.

O sistema de trabalho é por compensação onde o garimpeiro, aqui conhecido como mineiro, recebe a média de três dias de trabalho do rendimento do trabalho mensal, sem descanso. Escravidão ainda no século XXI.

Osvaldo, Adriana, Janaina e Gabriel desceram logo, enquanto que eu e Raphael Lampião ainda fomos explorar o lugar com as motos gigantes chamando a atenção daquele povo sofrido. Não demorou e o tempo mudou drasticamente, começando a nevar. Segundo um dos moradores, aquele dia estava quente, pois é comum chegar a impressionante temperatura de -25º célsius!

Não conseguimos chegar a grande cratera formada pela exploração secular do ouro, pois teríamos que deixar as motos e seguir caminhando. Resolvemos não arriscar e, apressados pela neve que caía, iniciamos nossa descida de forma cautelosa com o piso escorregadio com o gelo que se acumulava. A experiência vale a pena, pela situação extrema, para testar nossa habilidade na pilotagem em grandes altitudes e o desempenho da Africa Twin. Entretanto, a visita a Riconada não é o que podemos classificar como um belo passeio turístico.

Eu e Raphael chegamos em Putina e ficamos mais de uma hora preocupados: onde estavam os demais expedicionários?! Fomos ao hotel, rodamos toda a cidade, chamamos no rádio, mandamos mensagens no whatsapp e nada. Resolvemos procurar a polícia local se tinha havido algum comunicado de acidente e que pudessem contatar com a polícia em Ananea e nada! Estávamos prestes a retornar quando percebi que a mensagem enviada via whatsapp estava marcada como recebida no celular do Osvaldo Dias. Pronto, relaxamos e esperamos uns instantes quando houve a resposta: todos bem, estavam chegando, erraram o caminho na saída de Ananea e foram parar próximo a Sandia, outra cidade ali perto.

Pernoitamos no PerúInka Hotel, um três estrelas com pouco movimento e serviço padrão duas estrelas. Resolvemos conhecer as piscinas publicas com águas termais, que jorram quente da montanha vulcânica e chegam a 40º célsius nas chamadas “pozas” de banho privativo. E quem disse que homens heteros não tomam banho juntos? Me sentindo na Roma antiga, compartilhei do diálogo com os experientes nas trajetórias de vida com Osvaldo Dias e Gabriel Marques. Como é bom conversar, escutar e aprender com os mais velhos!

Voltando ao hotel, caminhando pelas ruas exclusivas de pedestre do centro de Putina, observamos grupos de jovens jogando vôlei na rua, outros ensaiando passos de dança típica e crianças brincando despreocupadamente na pracinha com seus skates e carrinhos de rolemã. Sim há muita felicidade e lugares assim.

Voltando à planície amazônica – divertimento garantido nas intermináveis curvas

Partimos de Putina as 7h rumo a Azangaro, percorrendo 64km de estrada de pedras e metade com asfalto precário. Avistei um animalzinho parecido com um esquilo grande e parei para fotografar quando me surpreendi com dezenas deles cruzando a pista e subindo a montanha de pedra. Mais adiante parei para fotografar um casal de Flamingos e logo após senti o pneu traseiro da Africa balançando.

Putz, outro furo e nessa hora o Raphael Lampião que estava com o kit de ferramentas e o carro de apoio estavam à frente! Chamei no rádio e felizmente a Adriana Dias respondeu. Mais uma troca de câmara de ar – aquela que preventivamente havia comprado la em El Alto de La Paz. Dessa vez usamos uma técnica ditada pelo Lampião: usar o descanso da moto dele para soltar o pneu do aro e também passar um shampoo para facilitar a retirada da câmara velha e depois a recolocação da nova. Uma hora depois já estávamos na estrada e na direção do último passo das Cordilheiras: Abra Oquepuño com seus 4.873 metros acima do nível do mar!

Em Abra Oquepuño fiz a terceira transmissão ao vivo este ano pelo Facebook, já que tiver a oportunidade de passar ali nas expedições Amarok Aventura e Titiqaqa, respectivamente em abril e junho passados. O acesso a sinal de celular e 4G está disponível em praticamente todos os lugares ao longo das rodovias peruanas. Fico verdadeiramente chateado de pensar que no Acre e no Brasil como um todo isso é quase um luxo.

Quem curte moto e já teve a oportunidade de pilotar nos Andes sabe que o playground dos motociclistas é aqui!

A partir de Macuzani as curvas se intensificam, com sequencias quase intermináveis até chegarmos a Mazuco e alguns tuneis. Pilotar fazendo esse balé a esquerda e a direita, com reduções e retomadas é de uma emoção indescritível. Pude sentir aqui o quanto a Africa Twin tem uma espetacular ciclística e equilíbrio, em que pese sua origem do off-road com pneus 21 dianteiro e 18 traseiro. A moto é alta, mas bem centrada e permite curvas no limite da aderência.

Breve parada a 2.100msnm em num restaurante, em frente a usina hidrelétrica de San Gaban, para degustar o último ceviche de truta da viagem e aproveitar para tirar as diversas camadas de roupa. Daqui a Puerto Maldonado o calor e humidade só aumentaria. Esse dia da Expedição BOLPEBRA foi o que teve mais variação de altitude e temperatura, já que cruzamos 4.873m e descemos a próximo dos 180m, com temperatura de 3º célsius na partida e 31º célsius na chegada!

Há 100km de Puerto Maldonado, a moto do Raphael Lampião rompeu um dos retentores das bengalas, deixando escapar todo o fluido. Seguimos num ritmo mais lento, especialmente pelos diversos “ruempe muelles” da via e chegamos ao confortável hotel Centenário em Puerto Maldonado as 20h30.

Ao redor da piscina no 7º piso, degustamos a pizza delivery da famosa El Hornito. Na avaliação da Expedição, depoimentos emocionados: eu com o aprendizado e convivência daqueles dias com um grupo coeso e formado por pessoas do bem. Durante nove noites comparti o quarto com o senhor Gabriel Marques, desembargado aposentado do estado de Rondônia, que me fez lembrar e me sentir ao lado de meu pai. Homem culto, experiente, recentemente viúvo, soube proferir palavras sábias e de comportamento que guardarei com muito carinho e experiência.

Osvaldo, Adriana, Jéssica e Raphael também foram companheiros inigualáveis, compartindo emoções e experiências que valem muito e para toda a vida. Obrigado a todos na certeza de que realizamos uma viagem cujo roteiro será brevemente consolidado como uma das mais novas opções do moto turismo sul-americano!

O último dia da Expedição BOLPEBRA foi de retorno pela planície amazônica a Rio Branco, com seus 230km até a fronteira e de lá mais 320km a capital do Acre. Não percorri esse trecho, me despedindo do grupo em Puerto Maldonado, já que viajei de avião a Lima, convidado para compor equipe técnica do Rally Baja Inka – Dakar Challenge, que acontece essa semana ao sul de Lima. Até a próxima e breve expedição!

Leia mais:

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Cassiano Marques de Oliveira é advogado, empresário e motociclista há alguns bons anos e quilômetros.

Expedição BOLPEBRA é um produto turístico da EME Amazônia Turismo e promoção do Grupo Star Honda. O autor viaja com uma Honda CRF 1000L Africa Twin a convite do Grupo Star Honda.

 

Tag's: Expedição BOLPEBRA, Bolívia, Peru, Turismo, EME Amazônia, Grupo Star Honda, Africa Twin

Fonte: Acreaovivo.com

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