Diário da Expedição BOLPEBRA – Conquistamos os Andes! - Por Cassiano Marques de Oliveira- Acreaovivo.com - TELEFONE: (68) 3224-8430 Levamos as bandeiras do Brasil e do Acre e as desfraldamos como se quiséssemos dizer a todos do nosso país: sim, nos podemos, o Brasil pode!

Diário da Expedição BOLPEBRA – Conquistamos os Andes! - Por Cassiano Marques de Oliveira

Quinta-Feira, 07 de Setembro de 2017 às 18:49 - Atualizado em Quinta-Feira, 07 de Setembro de 17 às 23:02
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Há 20 anos estive em Rurrenabaque e me surpreendi ao retornar em nossa Expedição BOLPEBRA com o crescimento dessa cidade, com ruas pavimentadas a concreto, comercio ativo e obras. Sim aqui o governo boliviano também constrói mais uma enorme ponte sobre o rio Beni.

Nossa hospedagem foi no charmoso La Isla de los Tucanes, com suas piscinas e chalés. Após breve tour a beira do rio Beni e plaza de Armas, partimos rumo à La Paz para 427km até nosso hotel na zona sul da capital boliviana. O primeiro trecho a Yacumo foi de quase 100km de retas a margem da Cordilheiras dos Andes  e estrada asfaltada, já necessitando de reparos em sua pavimentação. A partir dessa pequena cidade começam os diversos trechos de “ripio” (cascalho) com curvas e subidas, o que tornaram a pilotagem bastante técnica e tensa. Se antes de chegarmos a Rurrenabaque encaramos “de boa” longos trechos de cascalho, aqui é diferente, pois as pedras são soltas e arredondadas, sem trilho definido, acumulando-se nas curvas de subidas e descidas. Some-se a isso o trânsito e a poeira que nos obrigaram muitas vezes a parar para esperar cruzar os caminhões.

Breve parada técnica para repor as energias na pequena Inícua, almoçando o tradicional “pollo com papas”. Na saída, o meu vacilo: uma resvalada do pneu dianteiro num peça de madeira semienterrada e aquela deitada básica da Africa Twin, sem nenhum dano a “maquina”, mas ficando de lembrança dois dedos levemente golpeados e o “registro do terreno em terras bolivianas”. 

Seguimos em frente nessa alternância de pequenos trechos asfaltados e outros de pedras soltas, mas com a confiança de que Africa Twin responde excelentemente bem com o controle de tração desligado nessas situações, suspensão que nos dá conforto e conjunto de freios a disco a segurança.

Passamos margeando Caranavi e tivemos a única dificuldade em abastecimento com o frentista do posto se negando a fornecer combustível sob a alegação que o “grifo” não era cadastrado para a venda à estrangeiros e não podia vender pelo preço disponível aos bolivianos. Porém, com autonomia que nos permitia seguir em frente, partimos sem usar a gasolina reserva levada no carro de apoio, abastecendo num posto em Yolosa, próximo a subida para Coroico e do trecho que ficou mundialmente conhecido como Estrada da Morte. Dali é possível seguir a La Paz por estrada pavimentada, mas não viemos até aqui para andar no asfalto, não é mesmo?!

Encaramos com emoção revivida de 20 anos a subida da Estrada da Morte, atualmente com transito proibido a caminhões, mas muito utilizada por turistas que descem em mountain bike e as vans que os trazem até esse atrativo turístico. A subida é sempre pela mão invertida, a chamada mão inglesa, e mão na buzina nas curvas! A paisagem é estonteante, com os precipícios sem fim, samambaias gigantescas e as silhuetas das montanhas andinas! Os bikes normalmente descem a estrada no período da manhã até meados da tarde e nossa subida iniciou-se depois das 15h, o que foi tranquilo pois não cruzamos com ninguém, a “estrada da morte” era nossa!

As paradas para fotos são inevitáveis, incluindo o pontão de pedra que projeta a estrada para o abismo. Todos queriam chegar mais perto, a atração pelo vazio do precipício é algo misterioso ...

O final dessa da Estrada da Morte é no trecho asfaltado que nos leva ao “cumbre” a mais de 4.500 metros. Paramos para nos agasalhar e encaramos o frio por volta das 18h de zero graus no termômetro da moto do Raphael Vitorio.

“Isso aqui é pros fortes, não é pra ‘coxinhas’ não!”, vibrou o Raphael Vitório meu parceiro nas duas rodas, que acrescentou ter sido fundamental ter realizado curso off-road há pouco mais de um ano para ter a segurança da pilotagem nesses estradas. “As pedras roliças soltas e sem o trilho é um desafio maior a superar, especialmente nas curvas e frenagens”, acrescentou. Registro aqui o quanto foi bacana pilotar ao lado do Lampião, sempre tranquilo e seguro, nos dando alegria de pilotar sem aquela preocupação exacerbada com o amigo que vinha logo atrás.

Paradinha básica numa pequena vila de comercio de alimentos, a 4.400 metros, para experimentar o “choclo con quezo paceño”, uma iguaria deliciosa que combina a suavidade do milho andino com seus grãos enormes e o queijo salgado e frito (diferente do que comemos em outra expedição pelo Peru, onde o queijo lá é servido frio com o milho).

A chegada em La Paz foi surpreendente: praticamente nenhum veículo nas ruas, tudo deserto. Parecia que todas as pessoas uma grande cidade tinham sido abduzidas. Como assim? O que passa? Era o fim do “Dia de Peatones”, uma data anual em que no primeiro domingo de setembro simplesmente é proibido circular veículos do amanhecer ao anoitecer, deixando as ruas aos pedestres. Durante o dia do pedestre só pode circular veículos das forças de segurança, saúde e emergências.

La Paz, cidade em transformação

Ficamos três noites e dois dias inteiros turistando por La Paz e entorno. Passeamos por três das quatro linhas de teleféricos já em pleno funcionamento, com uma quinta prestes a inaugurar. É lindo ver a cidade sob esse ângulo, do alto, de forma suave e segura. As obras de infra estrutura em La Paz seguem transformando a cidade, melhorando a qualidade de vida dos paceños. Percebemos que o caótico trânsito já não é mais tão caótico assim (isso tendo como referencias as quase três décadas que viajamos por essas bandas, opinião compartilhada pelo “papito” expedicionário Osvaldo Dias, que aqui chegou pela primeira vez com o Projeto Pacífico, da transportadora Expresso Araçatuba, há 25 anos).

Na zona sul de La Paz, em bairros como Calacoto, estão modernos edifícios, lojas, concessionárias de veículos, hotéis de primeira linha e ótimos cafés e restaurantes. A elite boliviana ocupa essa região porque é mais baixa (media de 3100m) e clima ameno. Experimentamos a variedade de sabores e aromas no exclusivíssimo restaurante Gustu, que não serve absolutamente nada que não seja típico da Bolívia (nem Coca Cola, para desespero de alguns). O restaurante é uma cozinha conceito, fundado pelo cheff Claus Meyer, dono do  “Noma”, de Copenhague, eleito o melhor restaurante do mundo pela revista Restaurant. Comemos pão e manteiga de coca, peixe amazônico, cordeiro, truta, tudo com tempero e experiência da alta gastronomia. Pense num lugar bacana!

Superação na alta montanha

Partimos para um passeio extremo: a visita ao monte Chacaltaya, um dos 6 picos mais altos da Bolívia e que fica nas cercanias de La Paz. Antes de se intensificar o aquecimento global (sim ele existe, é real e já derreteu enormes camadas de gelo acumuladas nos últimos 5 milhões de anos), o Chacaltaya era uma estação de esqui, considerada a mais alta do mundo.

Após nossa van ziguezaguear por logos caminhos de cascalho, chegamos a base dessa antiga estação. Meu relógio de balonista marcava a impressionante altitude de 5200 metros. Dali resolvemos encarar os 200 metros ao “cumbre” caminhando, única forma de se chegar no alto, já que o teleférico há tempos foi desativado, restando apenas restos de cabos de aço e base de sustentação.

Confesso que fiquei preocupado com nossa ousadia, afinal somos aventureiros porém não somos atletas e conosco além do “sex”sagenário Osvaldo Dias, estávamos com o doutor Gabriel Marques, nos altos da disposição dos seus 77 anos. Propus logo: vamos ficar por aqui, no que fui rebatido que iriam só um pouquinho acima.  De pouquinho e pouquinho, todos se ajudando, a superação daquilo que temos como limite do corpo humano, do cansaço, da falta de ar, do medo da altitude e dos precipícios: chegamos lá, emocionados!!!

O empresário Osvaldo Dias não se conteve e, chorando, afirmou: “Momento histórico, o ser humano tem que ter isso: o desafio, eu vou chegar, eu vou vencer! Isso em tudo na vida, com a família, com os negócios, com os clientes, com os fornecedores. Nos momentos difíceis nos temos que nos superar. Encarar com realidade. Confesso que isso foi uma etapa importante na minha vida, de muitas que virão! Estou emocionado, lembrando do meu pai nesse grande desafio, um dia estaremos juntos novamente! Viva!”

Caminhar em altitude não é para qualquer um, que o diga o desembargador Gabriel Marques, que nos ensinou sobre união: “Nunca imaginei chegar a 5400 metros, mas estando em boa companhia, a gente chega lá, pois a união faz a força e juntos chegamos a qualquer lugar!”

Destaco ainda a superação do medo da altitude da jovem Jéssica Dias, que encarou o desafio um passinho por vez.

Levamos as bandeiras do Brasil e do Acre e as desfraldamos como se quiséssemos dizer a todos do nosso país: sim, nos podemos, o Brasil pode!

Leia mais:

Diário da Expedição BOLPEBRA – Aventureiros põem o pé na estrada

Diário da Expedição BOLPEBRA – Mais de 500km de obras em estradas e pontes

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Cassiano Marques de Oliveira é advogado, empresário e motociclista há alguns bons anos e quilômetros.

Expedição BOLPEBRA é um produto turístico da EME Amazônia Turismo e promoção do Grupo Star Honda. O autor viaja com uma Honda CRF 1000L Africa Twin a convite do Grupo Star Honda.

 

Tag's: Expedição BOLPEBRA, Bolívia, Peru, Turismo, EME Amazônia, Grupo Star Honda, Africa Twin

Fonte: Acreaovivo.com | Fotos Cassiano Marques e coloboradores

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